Entrevista Especial – Adriani Galão

Quem é Adriani Galão?
Uma mãe, filha, esposa, irmã, colega, professora, aluna, médica, administradora, corredora, por vezes extremamente exigente com os que me cercam, mas muito fiel as suas amizades sinceras e aos compromissos assumidos. Dizem que sou intensa e inquieta desde criança, será?

O que a motivou se tornar médica?
Por incrível que pareça, minha ideia inicial era me tornar atleta, pois competia na minha infância e adolescência e adorava praticar esporte, hábito que pratico até hoje. A medicina veio como uma boa surpresa na minha vida e me tornou uma pessoa realizada e completa com sua profissão.

E o que a levou a se especializar em ginecologia e obstetrícia?
Esta especialidade possibilita trabalhar com inúmeras áreas da Medicina como clínica, cirurgia, imagem e pesquisa, talvez esta diversidade de possibilidades diárias tenha me chamado a atenção, nenhum dia é igual ao outro nesta área e jamais existe monotonia. Num momento se esta dentro de um consultório ou numa festa de família, o telefone toca e lá se despenca o obstetra, e de maneira plena e realizada, o que é mais incrível ainda.

Dizem que participar de um parto é emocionante. Você se lembra do primeiro parto que realizou?
Sem dúvida nenhuma, esta é uma das áreas que te permite participar talvez de um dos momentos mais importantes de uma pessoa, um casal ou uma família inteira. Momento único que fica registrado para o resto da vida na mente e na alma destas pessoas e também dos médicos que delas participam. Acho que no momento que isto não me causar mais esta emoção, mescla de felicidade, preocupação e taquicardia, talvez seja o momento de parar.

Como consegue administrar a rotina de docência na faculdade de Medicina, atividade no Hospital de Clínicas e direção do hospital Presidente Vargas?
É uma rotina bastante intensa, com muitas horas diárias de envolvimento, por vezes em detrimento do convívio com familiares e amigos, mas se feita com dedicação, prazer e com a aceitação deles, por entenderem ser importante, fica muito mais leve. É necessária uma parcela grande organização, que se vai aprendendo ao longo dos anos, e proximidade de equipes de colaboradores e colegas que te completam e te auxiliam diariamente nestas atividades. Sou uma privilegiada, pois tenho esta rede de pessoas competentes e dedicadas junto a mim. Por vezes são atividades que se complementam, posso passar também aos meus alunos estas vivências, pois muitos deles irão ocupar ou até já ocupam cargos importantes de chefias e outros cargos administrativos, me enchendo de orgulho por ter participado desta formação.

Com a saúde pública cada vez mais subfinanciada, quais são os desafios de gerir um hospital público?
Talvez os maiores desafios sejam o gerenciamento de pessoas e a lentidão dos processos públicos. Gerenciar indivíduos completamente diferentes por formação, profissão, crenças e crédulos é a parte mais desafiadora. Não há fórmula única, e sim erros e acertos diários, com avanços e recuos na hora certa, ao bom estilo do xadrez. Os processos públicos são complexos, desafiadores e tem um tempo jurídico e legislativo determinado para acontecerem, por vezes longe do ideal e da necessidade premente na saúde, mas finitos. O que não significa que não tenhamos que repensá-los e até mudá-los. O grande percentual do gerenciamento tem que ser tomado com embasamento técnico e científico, mas outra parte poderá ser feita com muita criatividade e superação. Quando o grupo compra junto o desafio de melhorar uma assistência, um local ou um serviço, estas mudanças ocorrem mais rápido e de maneira mais perene.

O que você diria para uma mãe de primeira viagem em relação à gestação?
O que digo para minhas pacientes: momento único na vida, de descobertas profundas e intensas e que após esta experiência certamente tornar-se-ão pessoas melhores e mais humanas, com modificação profunda de seus valores. Não se passa imune após uma vivência destas.

Atualmente tem se falado muito do parto humanizado. Do ponto de vista obstétrico, quais os riscos de não haver uma supervisão médica no parto?
Este termo tem sido empregado muitas vezes como sinônimo de parto natural, sem interferências, que pode ocorrer fora de ambiente hospitalar, feito por pessoas com capacitações diferentes, mas por vezes sem formação médica que, sob minha ótica, poderão agregar riscos ao nascimento. O conceito de parto humanizado sempre existiu, talvez não com este nome. Significa, no meu entender, o nascimento que ocorra com proteção e cuidado do binômio mãe-bebê, isto é humanização. Quer lugar melhor para isto acontecer que junto de pessoas com formação e experiência na área e em local seguro e protegido como em um hospital equipado? De maneira generalizada, noventa por cento das gestações, em pacientes de risco habitual, se desenrolam normalmente sem grandes intervenções, mas o percentual restante tem que ser visto e resolvido por técnicos experientes que foram treinados para estas situações de urgência podendo agir prontamente para a resolução da mesma, e nem sempre este tempo de ação é generoso.

O que te faria sair de Canoas?
Gosto muito de morar na cidade que assumi como minha a partir dos 6 anos de idade, inicialmente por desejo da minha mãe por ser a cidade de moradia dos meus avós e após como escolha de vida. O bom sempre é morar perto das pessoas que amamos e das raízes que criamos. Nunca quis morar fora do país por acreditar que muito tem a se fazer aqui, mas também acho que estamos muito aquém do patamar que já poderíamos estar em termos de segurança, saúde e educação.

Como cidadã de Canoas, qual o maior déficit da cidade?
Acho que nas áreas já apontadas seria uma grande oportunidade de ação por parte das nossas autoridades. Estamos passando por um período extremamente frágil, especialmente na saúde oferecida para os cidadãos canoenses que têm migrado frequentemente para Porto Alegre, ou outras cidades próximas, até mesmo para terem seus filhos, situação vergonhosa para uma Cidade tão grande e com grande potencial como a nossa.

O que você mais aprecia em Canoas?
Estamos muito bem servidos de áreas verdes e parques. Tínhamos um grande déficit de áreas comerciais e de boa gastronomia e felizmente esta realidade esta mudando rapidamente, muito graças ao grande investimento do novo shopping e do comércio no seu entorno. Esta área eu conheço bem e pude acompanhar desde seu início, ficou realmente muito bonita.

O que Canoas precisa para melhorar?
Acho que poderia se investir mais em esporte e educação na nossa cidade. Formação de base sempre traz consigo uma grande mudança. Tive oportunidade na minha infância de frequentar um dos melhores colégios públicos da cidade, onde aprendi, além dos conhecimentos básicos propriamente ditos, muito sobre civilidade, respeito ao outro, ética e como buscar oportunidades. Fico muito preocupada com a decadência destes valores nos dias atuais e da falta de investimentos nesta área.

Para quem você pediria uma selfie?
Confesso que não sou muito boa nisto, por vezes tímida. Acho que é uma demonstração grande de intimidade. Reservo a pessoas muito próximas com quem me relaciono.

Se tivesse que dar um conselho qual seria?
O que aprendi em casa e junto com meu esposo tento passar a nossos filhos. Nunca deixe passar uma oportunidade de aprender algo novo, de estudar com dedicação e afinco, de ser curioso, pois conhecimento adquirido não dói e não ocupa espaço e poderá ser utilizado em momento futuro.

Uma comida para a vida inteira:
Confesso que este não é o meu forte, minha comida favorita sempre é aquela feita em família ou entre amigos e de preferência por outra pessoa que não eu, e que poderá ser degustada com calma, numa mesa bonita, com um bom papo como acompanhamento. Não abrimos mão de jantarmos juntos na minha casa, mesmo que isto seja feito bastante tarde. Momento de rever o dia e de conviver.

O que não come de jeito nenhum?
São muitas coisas…já confessei que este assunto não é meu favorito, mas tenho me esforçado desde que entrei na faculdade, a pelo menos provar ingredientes novos, pois já tive situações hilárias na minha vida devido a esta teimosia.

Um evento histórico que gostaria de ter presenciado?
Um evento que presenciei, e acredito que ainda está muito vivo na memória de todos, foi o atentado ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001 em Nova York. Na realidade gostaria de ter participado deste resgate as vítimas, pois me sentia muito impotente vendo as imagens pela televisão e como médica, talvez por instinto aprendido, a vontade é de ajudar imediatamente neste socorro. Assim como tive a oportunidade de fazê-lo na tragédia da Boate Kiss em janeiro de 2013 e também no período da Pandemia de gripe A (H1N1) em 2010 numa grande campanha de vacinação que mobilizou o país. Estas situações são momentos de grande e intenso aprendizado e onde vemos florescer o que os seres humanos têm de mais lindo que é o poder da solidariedade. Uma verdadeira lição de vida!

O lugar mais lindo que já esteve?
Felizmente sou uma privilegiada e já tive muitas oportunidades de dizer esta frase. Gosto muito de me sentir bem e alguns destes lugares trouxeram um momento de bem-estar intenso, seja pela beleza do mesmo ou pela boa companhia. O que temos que aprender é que não precisamos percorrer longas distâncias para encontra-los, às vezes estamos a poucos passos.

A maior crença?
Sou uma pessoa de fé e acredito em algo mais, além disto, que vivenciamos. Não sou muito assídua à prática da mesma, mas é uma coisa que preciso melhorar, pois me traz paz e tranquilidade, até para passar um pouco de esperança a meus pacientes, pois às vezes a situação fica muito grave e complicada. Acredito de fato que sempre tem uma saída, e por isto acho que consigo algumas palavras certas nestes momentos.

O que te tira do sério?
Muitas coisas me causam indignação e por vezes espanto e profunda irritação. A capacidade do ser humano de fazer maldades e enganar os outros é uma destas. Crueldades e injustiças me ofendem profundamente. Vai do estacionar em vaga de idoso ou gestante sem o ser, até as grandes corrupções vivenciadas no nosso país. Se todos se colocassem, nem que seja por instantes, no lugar do outro, talvez a coisa seguisse diferente.

Uma superstição:
Não sou chegada a superstições, mas brinco com algumas. Sou uma pessoa mais cética e racional, talvez por formação. Não acredito muito em sorte ou azar e sim em dedicação e esforço.

O que te emociona?
O que me emociona é a emoção do outro. Pode ser uma música, uma simples frase ou uma simples ultrapassagem de linha de chegada, mas dependendo como é dita e de quanto se gastou emoção e esforço no caminho, bate forte ou não.

Para quem e qual recado você nunca deu e gostaria de dar agora?
Isto é uma pergunta interessante, pois quem me conhece um pouco sabe que não sou pessoa de mandar muito recado. Acho que a comunicação direta e franca sempre é a melhor saída. No meu entendimento, o problema maior entre os seres humanos é de comunicação, então, quanto mais diretos e retos pudermos ser, talvez seja melhor. Gosto muito de me comunicar, sei que nem sempre posso ser entendida, mas sigo repetindo e tentando me expressar, esta é a verdadeira graça da vida… Aliás, um recado interessante para ser passado seria: seja alegre e leve a vida de forma mais leve!

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