Autor: Fabiani Fortes

  • Carteira Nacional Docente

    Carteira Nacional Docente

    A valorização da categoria dos professores está longe de ser o que sonhamos. Seguimos lutando por salários justos, melhores condições de trabalho e respeito à profissão que forma todas as outras. Ainda assim, vez ou outra, surgem pequenas conquistas que, mesmo simbólicas, carregam em si um sinal de reconhecimento.

    Foi assim que recebi a notícia desta semana: a aprovação, na Comissão de Educação, do Projeto de Lei 41/2025, de autoria do ministro Camilo Santana, que cria a Carteira Nacional Docente (CND). Confesso que me surpreendi positivamente.

    O documento, que terá validade nacional, busca identificar oficialmente os professores das redes pública e privada, além de facilitar o acesso a benefícios e prerrogativas já existentes em muitos estados e municípios. Cultura, saúde, descontos e outras oportunidades: tudo isso fica mais acessível quando há uma comprovação clara e padronizada da profissão.

    Pode parecer um detalhe, mas não é. Hoje, cada rede e cada localidade criam seus próprios modelos de identificação. Isso gera confusões, burocracias e, muitas vezes, constrangimentos. Com a CND, teremos algo simples, objetivo e com fé pública. Nome, filiação, instituição empregadora, QR Code. Enfim, um reconhecimento oficial que não deveria ser novidade, mas que finalmente se desenha.

    Camilo Santana destacou que o Brasil tem mais de dois milhões de professores espalhados por cada canto do país. E é verdade: estamos em todos os lugares, mas nem sempre somos vistos como deveríamos. Um documento único, por si só, não resolve os problemas estruturais da educação, mas abre caminho para algo essencial: o respeito institucionalizado.

    Eu vejo essa proposta com bons olhos. Mais que uma carteira, é um gesto de valorização. Pequeno? Talvez. Mas, em tempos em que tantas notícias desanimam os educadores, ter um projeto que reconheça oficialmente nossa identidade docente é um sopro de esperança.

  • O Silêncio das Urnas

    Iniciava-se mais um período do Processo de Eleições Diretas (PED) no Partido dos Trabalhadores. O segundo turno se anunciava como novo capítulo de um processo democrático construído a muitas mãos. Eis que, de súbito, surgem as notícias: acordos foram firmados entre os candidatos e suas respectivas correntes. Aparentemente, tudo em nome da unidade. Mas que unidade é essa que nasce à revelia do voto?

    As eleições sempre foram — e deveriam ser — o ápice da democracia. E o Partido dos Trabalhadores, desde sua fundação, orgulhou-se de ser a exceção que não confirma a regra: o único partido que realiza eleições diretas para seus diretórios municipais, estaduais e nacional. Um partido de massa, de base, que carrega em sua história o suor dos operários, o grito das mulheres, o punho cerrado da juventude, o canto dos povos do campo e da cidade.

    No entanto, agora, um acordo fechado nos bastidores do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre cala a militância. De uma hora para outra, os filiados e filiadas — aqueles e aquelas que enfrentaram filas, discutiram teses, panfletaram nas praças e carregaram as bandeiras nas costas — perderam o direito de votar no segundo turno. Não por vontade própria. Não por falta de engajamento. Mas por força de um acerto entre lideranças que decidiram dividir os mandatos como se fossem fatias de um bolo.

    Onde está a democracia que tanto defendemos? Onde foi parar o princípio do “um petista, um voto”? De que vale todo o processo, toda a mobilização, se a escolha final é feita por cima, nas mesas de negociação?

    Houve-se muito falar em unidade. Em pacificação. Em composição. E, claro, é sempre louvável buscar consensos. Mas que consensos são esses que prescindem da consulta à base? Que construção é essa que começa com a porta fechada para a militância? A democracia não é feita apenas de discursos bonitos, mas de práticas concretas. E o que se viu foi o contrário disso.

    É nesse momento que o partido precisa se olhar no espelho. Relembrar de onde veio. Reafirmar seus princípios. Porque não se trata apenas de uma eleição. Trata-se da confiança que cada militante deposita ao vestir a camisa do PT. Trata-se de respeitar a trajetória de quem acreditou, mesmo quando era mais fácil desistir. Trata-se de preservar a alma do partido: a participação.

    Não é tempo de fazer política como sempre foi feita. É tempo de reafirmar o que sempre nos diferenciou. Porque sem base, não há direção. Sem voto, não há legitimidade. E sem democracia, não há Partido dos Trabalhadores.

    Que este silêncio das urnas ecoe como um chamado. Que sirva de alerta. E que, na próxima esquina da história, possamos escolher não o caminho mais curto, mas o mais justo.

    Porque no PT, quem manda é a base. Ou, pelo menos, deveria ser.