Xico Gonçalves, um olhar atento e cheio de estilo para moda

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Leci da Silva
27/07/2022
Tempo de leitura: 10 minutes

José Francisco Garcia Gonçalves, gaúcho nascido em 12.mar.52, natural de Porto Alegre, formado em jornalismo pela Unisinos, rodeado pela “moda” desde a infância, tornou-se o XICO GONÇALVES que o Brasil conhece.  Xico Gonçalves, que traz suas novas inspirações para a 5ª edição da Feijoadíssima by Bebeto Azevedo, dia 31 de julho, no ParkShopping Canoas, é o entrevistado da Revista Diário de Bordo de julho/22.

Diário de Bordo – Ícone da moda no Brasil, gaúcho multipremiado. Nossos leitores querem saber de sua história de vida, saber de suas origens, sua família, ascendência, sua infância e juventude.  Também querem saber quais fatores o levaram a enveredar para a moda.  Qual foi o “gatilho” que o fez interessar-se por moda?

Xico Gonçalves – Minha infância foi rodeada de roupas lindas confeccionadas pela minha mãe – que era uma exímia modista, para minhas quatro irmãs, que com uma agenda social semanal agitada, precisavam de apresentar a cada festa com um figurino diferente, como era hábito na época (Repetir roupas era visto como um ato deselegante!). Como eu era o filho caçula e permanecia em casa enquanto minhas irmãs iam à escola, minha mãe, a D. Maria, me passava sua coleção de revistas Burda e Vogue para me distrair. Desde cedo aprendi a olhar a moda como um ofício onde a realidade e o sonho se completavam, registrando na minha memória imagens deslumbrantes de editoriais com roupas e modelos impecáveis. Chegando à vida adulta, comecei a usar meu modo de vestir como uma comunicação de modernidade. Eram os anos 1970, tempos de liberdade, onde o lema era “É proibido proibir”. Apesar de cursar nesta época o curso de comunicação social, com o intuito de vir a ser jornalista, a moda novamente se impôs na minha vida. Por conta da minha altura e da minha aparência moderna, fui convidado a trabalhar como modelo masculino. Imediatamente consegui muitos trabalhos, e, diferente dos outros profissionais que vestiam as roupas e entravam na passarela, eu, com o meu conhecimento de moda, dava sugestões de como produzir os looks e até sugestões de roupas. Em um destes trabalhos para a loja San Remo, sucesso na época, seu proprietário, César Vargas, gostou tanto das minhas ideias que me convidou para criar uma grife de moda e lançar-me como estilista. O sucesso da X & C foi tão imediato que em poucos meses já tínhamos uma fábrica com mais de 50 funcionários atendendo centenas de lojas multimarcas em todo Brasil. Aos 18 anos já tinha a responsabilidade de criar quatro coleções por ano. Quando encerrei minha atividade de empresário de moda, já trabalhava no grupo RBS como comunicador na TV e no jornal Zero Hora, possibilitando-me produzir, junto com meu sócio Oliver Laporta, o Donna Fashion Iguatemi durante dez anos, considerado um dos maiores eventos de moda do país. E, assim, percorri a minha trajetória de quase cinquenta anos neste segmento, sempre com muito sucesso, atuando em todas as áreas onde vestir é importante, da comunicação à confecção de roupas e, recentemente, como figurinista de novelas, já que desde a novela “Genesis”, da TV Record, e atualmente em “Reis”, sou responsável pelo figurino de boa parte do elenco. Posso dizer que a moda escolheu Xico Gonçalves para ser seu representante!

Diário de Bordo – Na área da moda Xico Gonçalves já atuou, e atua, em várias frentes.  Recentemente uma vasta produção para novela de época, sendo que não foi a primeira vez que trabalhou com novelas.  O que se pode esperar do futuro próximo, seja em termos de TV, seja em outras áreas artísticas?

Xico Gonçalves – Nos anos 1980 colaborei com o figurino de “Brega & Chique”, “Ti-Ti-Ti” e muitas outras novelas, mas não atuava como figurinista. apenas enviava as roupas da minha marca para a TV Globo (um vestido usado por Marília Pera chegou a vender 300 cópias em uma tarde!!!!). Mas agora estou atuando na criação do personagem, já que o figurino é uma ferramenta importante para o artista desenvolver o seu trabalho. Na obra “Genesis” cheguei a desenhar mais de quinhentas roupas femininas. Já na novela “Reis” colaboro na roupa dos atores, já que grande parte de elenco e masculino. Foi um grande desafio trabalhar com figurinos, porque é completamente diferente do trabalho de estilista. Paralelo a esta performance, estou desenvolvendo uma loja virtual, com uma coleção de roupas éticas. Estou voltando ao mercado de roupas, depois de mais de vinte anos dedicando-me quase que exclusivamente ao jornalismo de moda, e minha intenção é trazer uma proposta inovadora, de acordo com os tempos atuais, onde o maior luxo, sem dúvida, é a preservação do ambiente que vivemos. Caso contrário, não vai adiantar usar verde em um mundo preto e branco.

Diário de Bordo – Entre o “ABC da Moda” (2004) e o “Poder da Imagem” (2021) passaram-se 17 anos.  Teremos de esperar mais 17 anos para outra obra literária de Xico Gonçalves?  Ou já há algo no prelo?

Xico Gonçalves – Na verdade não parei de escrever neste período de 17 anos. Durante este tempo escrevi um texto de ficção chamando “A moda nunca mais será a mesma”, uma fábula em tom de comédia sobre a briga de um famoso estilista em decadência e uma grande editora de moda que quer ajudá-lo a voltar aos holofotes. A história gira em torno do lançamento de uma modelo que tem perfil para se tornar um sucesso internacional.  A comédia se passa nos anos 1980, época das grandes ombreiras e do estilo perua. Quando escrevi esta obra pensava em adaptá-la para uma série na TV a cabo, mas recentemente resolvi transformá-la em romance de ficção e ainda estou trabalhando na transposição para livro. Escrevi também uma peça de teatro “O Novo Homem”, sobre um personagem que, por amor a uma mulher, resolve mudar seu estilo de vida. Nesta peça para o teatro iria lançar a modelo Shirley Mallmann como atriz e consegui até ingressar na lei Rounet, para buscar patrocinadores, entretanto, com o advento da Covid, a estreia teve que ser adiada, mas em breve retornaremos à produção. Na área literária, escrevi o livro de mesa “A cultura da moda no Brasil”, que registra como todas as nossas roupas de uso diário foram criadas e como chegaram ao Brasil. O projeto está em Brasília, tentando liberação na Lei de Apoio a Cultura, por ser um livro de arte com ilustrações em aquarela e capa dura. Nos próximos meses pretendo lançar o “o Poder da Imagem” exclusivo para os homens, que está bem adiantado, e outro exclusivo para o mercado corporativo. Portanto, quem me acompanha e gosta do meu trabalho terá à disposição muitos produtos culturais criados por mim.

Diário de Bordo – Xico Gonçalves fixou domicílio do Rio de Janeiro após já ter seu trabalho reconhecido em todo o território brasileiro.  O que o levou a trocar Porto Alegre pelo Rio de Janeiro e que influência tal mudança teve em seu trabalho?

Xico Gonçalves – Minha intenção de mudar para o Rio de Janeiro iniciou nos anos 1980. A ideia era fixar a empresa na região leste como uma estratégia nas vendas e entrega das roupas que fabricávamos, considerando que o custo de transporte da mercadoria e visibilidade no mercado seria mais funcional. Já havia comprado um imóvel para me transferir, quando entrou em vigor o plano Collor, desmantelando a indústria nacional. Foi um período muito duro em todos os setores da economia e meu plano de mudança de capital foi arquivado. A ideia voltou a ser cogitada nos anos 2000. Com o crescimento da indústria cultural no Rio de Janeiro, tomei coragem para tentar trabalhar como roteirista de teatro, já que, quando vim para o Rio, existiam mais de oitenta teatros apresentando peças dos mais diversos tipos e com público para todas. Chegando aqui, entretanto, acabei optando por eventos de moda e assessoria a empresas de roupas, até a pandemia. Mudei para o Rio tentando abrir meus horizontes profissionais. Mas sempre com o Rio Grande do Sul no coração. Sempre brinco que existe o Rio Grande Do Sul e o Rio Grande do Norte e que o resto do Brasil é o Rio Grande do Meio!!!!

Diário de Bordo – Mesmo com 50 anos, ou quase, de moda, por certo Xico Gonçalves não pensa em parar.  Como Xico Gonçalves vê Xico Gonçalves (toda sua trajetória profissional) em 2040 e o que diria o Xico de hoje para o Xico do futuro?

Xico Gonçalves – O que eu diria para o Xico do futuro é que vale a pena se reinventar. Não sei o que me reserva nos próximos anos, mas tenho uma característica de aceitar desafios. Adoro o novo e não temo nenhuma barreira. Trago comigo uma autoconfiança sem limites e acredito que se alguém já fez, eu posso fazer. Estou programando, junto a alguns parceiros, um curso on line, repassando tudo que aprendi com a moda, como um legado para quem gostaria de entrar neste segmento. Tenho muito para contar e ensinar. Quero deixar este registro para, quem sabe daqui a cinquenta anos, sonhadores como eu possam viver e ser financiado pelo maravilhoso mercado da moda.

Diário de Bordo – Fâs afoitos de moda e de Xico Gonçalves, qual a mensagem que podes deixar para os leitores da revista Diário de Bordo?

Xico Gonçalves – Gostaria muito de convidar meus amigos e admiradores para um abraço apertado no dia 31 de julho, no evento “Feijoadíssima”, onde mostrarei meu mais recente desafio. Uma coleção de roupas sustentáveis. Motivado pelo sucesso das lojas on line, estou voltando ao segmento de roupas, depois de mais de vinte anos dedicado ao jornalismo de moda e eventos. A X+G Moda Ética traz um conceito de preservação do meio ambiente. Achei pertinente abordar a moda com uma postura ecológica. A coleção Lemúria, para a primavera 2022, é composta de peças polimórficas (qualidade ou condição do que está sujeito a mudar de forma ou do que se apresenta sob diversas formas), ou roupas que têm múltiplas expressões ou maneiras de usá-las com efeitos totalmente diferentes, que até podem não ser inerentemente ecológicas por escolha material, mas são éticas. Um dos principais conceitos do vestuário ético é o consumismo consciente e reduzido, e das quais o consumidor se apegue por muito mais tempo. Lemúria, que inspira está coleção cápsula, é um dos continentes extintos, considerados como o paraíso perdido. A mítica da Lemúria era de um lugar de hermafroditas, espíritos etéreos e metamorfos, capazes de mudar seus corpos através do poder da mente. A coleção traz este conceito de mudança, de metamorfose, usando a mesma roupa. A Lemúria, teoricamente, era um pedaço de terra que conectava a África e a Austrália com a Índia e, assim como Atlântida, desapareceu no dilúvio. Em breve a coleção estará disponível na loja virtual @x+gstore.  Torcendo para que vocês gostem desta nova proposta, que se preocupa com o futuro do universo em que vivemos. Moda é o que você compra. Estilo é o que você faz com o que compra. Ter estilo, nos dias atuais, é, também, preocupar-se com o meio ambiente.